Em meados de 2017, em conjunto com 2 amigas de SP e MG, planejamos uma aventura que parecia simples e sensacional: ir aos 4 extremos do Brasil. A proposta era de irmos com pessoas comuns, normais, que gostam de trilhas e atividades outdoor, que não são atletas ou profissionais. E criamos o site do projeto: https://4extremos.montanhas.eco.br. Não tínhamos ideia do que nos esperava. Reunimos uma dúzia de amigos e amigas e fizemos primeiro a mais fácil, o EXTREMO SUL, mas como todo montanhista, queríamos ter um desafio e escolhemos uma travessia já conhecida: 226 km na maior praia do mundo durante o Carnaval de 2018. Com a pandemia o projeto atrasou vários anos, então a repetimos em 2024. A seguinte seria o EXTREMO NORTE.

O EXTREMO NORTE do Brasil está situado na fronteira do Estado de Roraima com a Guiana Inglesa, num lugar remoto e poucas vezes acessado desde sua definição com o marco B/BG-11-A pela Comissão Brasileira Demarcadora de Limites de fronteira no ano de 1931, e dentro de uma selva densa e bastante preservada, na atual Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, nas terras dos povos originários Ingarikós.

Em 2019 iniciamos os primeiros contatos com o Parque Nacional do Monte Roraima, o ParnaRoraima do ICMbio, visando obter informações de como chegar nesse local extremo pois ao mesmo tempo que é uma reserva indígena também é um parque nacional. O chefe do parque na época nos informou que deveríamos primeiro conversar com a associação COPING, a Coordenação do Povo Ingarikó.
2020 foi o ano da pandemia e os projetos foram adiados. Com o passar do tempo, as pessoas mudaram, perdemos os contatos, e só conseguimos o primeiro contato com a COPING em 2024.
O projeto Quatro Extremos visa REGISTRAR os POVOS ORIGINÁRIOS que vivem nesses extremos, registrar sua cultura, seu modo de vida, as paisagens naturais da região que vivem, as suas lendas e histórias, os principais pontos de atração que possuem no seu território como rios, cachoeiras e montanhas, inclusive o marco dos extremos do Brasil.
Em agosto de 2024 fizemos a primeira viagem de preparação da expedição indo até Boa Vista e depois Uiramutã, no estado de Roraima. Após mais de 8 horas viajando inicialmente pela BR-174 e depois em grande parte numa estrada de terra até chegarmos ao município de Uiramutã, considerado o mais indígena do Brasil, para preparação e levantamento da infraestrutura, da logística terrestre em camionetes 4×4 e fluvial em voadeiras, da hospedagem, bem como para cumprir as reuniões agendadas com a COPING dos Ingarikós e com o CIR (Conselho Indígena de Roraima) dirigida pelos Macuxis, pois a aldeia deles é a primeira que teríamos de cruzar, a Villemon.
A presidente da COPING nos encaminhou ao Secretário de Assuntos Indígenas do Governo do Estado de Roraima, com o qual conversamos pessoalmente em agosto e apresentamos o projeto detalhado, com justificativas e documentação, mostramos a presença que tínhamos com outros povos indígenas, como os Pemóns Taurepang, os Yanomamis e os Pataxós, mostrando as diversas doações que realizamos de remédios, medicamentos, equipamentos de montanha, computadores, celulares e outros materiais que sempre necessitam (www.montanhas.eco.br/doacoes) .
Nessa época conhecemos a NUTRIR, um tipo de cooperativa indígena dos Ingarikós que desenvolve atividades agropecuárias e possui algumas centenas de cabeças de gado. Ela também visa desenvolver a tecnologia agropecuária, realizar cursos e treinar os Ingarikós para que possam gerar renda com essa atividade, bem como para a sua alimentação.
A NUTRIR é uma fazenda que fica no meio do caminho entre a cidade de Uiramutã e a aldeia Manalai, e tem recursos de energia elétrica solar capazes de manter o freezer e geladeira e com isso armazenar alimentos para a comunidade local.
Eles tinham um projeto de criar um Laboratório de Informática para desenvolver atividades de Ensino à Distância e oferecer cursos técnicos, permitir acesso aos serviços online do Governo Federal, permitir cursar até mesmo uma universidade à distância, e faltava o impulso inicial para iniciar o laboratório.
Já tínhamos levado equipamentos de computação para outros povos indígenas e nos comprometemos a ajudar nesse sentido marcando para março/25 o nosso retorno para visitar a região dos Ingarikós e a aldeia Manalai, a mais setentrional do Brasil, e levar os computadores. A COPING nos deu uma carta para que pudéssemos institucionalmente solicitar às empresas essas doações. Voltando ao Rio de Janeiro procuramos amigos e fizemos contatos com pessoas e empresas do RJ, MG e SP que pudessem colaborar com essa doação. Enviamos cartas e abrimos vários canais de negociação. Com a nossa experiência em TI detalhamos o projeto.
Numa corrente que envolveu diversas pessoas físicas e algumas empresas conseguimos vários equipamentos, alguns precisando reparo ou troca de HD, de bateria ou teclado, alguns capazes de rodar Windows ou Linux, e começamos a preparar os melhores equipamentos, instalar os softwares, conectá-los em rede local, testar tudo para levar todos funcionando adequadamente.
Em paralelo fomos obtendo mais informações para preparar a viagem, determinar o custo da expedição e de que forma poderia ser feita para cumprir nosso objetivo e alcançar aquele extremo norte do Brasil. Também nos comprometemos a desenvolver um site completo para a Aldeia Manalai dos Ingarikós onde pudéssemos contar um pouco do seu modo de vida, cultura, cosmologia, história e lendas. Já desenvolvemos parecido para outros povos indígenas, como os Taurepang em www.paraitepuy.com .
Percebemos que seria um tipo de expedição diferente de todas as que fizemos antes pois íamos para uma região muito isolada, que não está preparada para receber visitantes ou turistas, e cujo acesso é muito difícil. Precisa ser feita por via aérea com aviões pequenos chegando na aldeia ou por via terrestre através de veículos especiais 4×4, barcos como voadeiras e trilhas, tomando 2 dias completos para chegar em Manalai dessa forma
Então, planejamos estar o mais auto-suficiente possível. A nossa alimentação seria com alimentos liofilizados aos quais basta adicionar água fervente, considerando em torno de 600 a 700 g de alimento por pessoa/dia para o almojantar. E mais o café da manhã completo com café, leite, pães, queijos, sucos, etc. Sabíamos que os Ingarikós fariam a fogueira para aquecer a água, compramos panelas e garrafa térmica. Levamos nossos copos, talheres e pratos. Só dependíamos do fogo.
Para os Ingarikós compramos a comida tradicional que foi pedida, carne seca, linguiça, arroz, pasta, molho, farinha, açúcar, café, leite, sucos, etc. E em maior quantidade, para não faltar. Na entrega disse para eles “compramos em maior quantidade para vocês levarem o que vão consumir na trilha e deixarem o resto em suas casas”.
Para dormir não tínhamos segurança de que se poderia se armar barracas ns selva devido ao solo irregular e risco de furar, mas com a certeza de que rede de selva seria fundamental. Preparamos para o grupo um kit de rede selva individual inspirada na Kampa, contendo a rede de nylon e suas cordas, o mosquiteiro de rede e um toldo de lona de 3x3m com 180 micras de espessura, resistente a chuva forte. Além disso, havia um cordelete de 10 m para suportar o toldo, um tirante elástico para o mosquiteiro e fitilhos para esticar o toldo. E a barraca ficou sendo opcional para quem desejasse levar a sua.
O ponto de encontro e partida foi Boa Vista, capital do Estado de Roraima. Dali nos deslocamos via terrestre por 280 km até o município de Uiramutã de 11 mil habitantes, o mais setentrional do Brasil, situado já no hemisfério norte e considerado também o mais indígena. Nele está situado o Monte Roraima e o Monte Caburaí. Dentro da terra indígena Reserva Raposa Serra do Sol que contempla cinco etnias indígenas: Ingarikós, Macuxis, Patamonas, Taurepangs e Uapixanas, sendo que a região dos Ingarikós é chamada somente Reserva Serra do Sol.
A viagem para Uiramutã poderia ser de ônibus ou em 2 carros 4×4 tipo lotação. Escolhemos o ônibus para que o grupo viajasse junto. Estávamos em 7 e chegamos em Boa Vista na véspera. Nos concentramos no Hotel Euzébios, um dos poucos que permite chegarmos com bagagem pesada e muitas caixas, quase carga.
Eu cheguei na segunda-feira às 6:00 vindo de Manaus de ônibus noturno com 3 malas que se destinavam para a nossa expedição. Uma mala grande com os alimentos liofilizados comprados no Rio de Janeiro, outras duas malas com os equipamentos de infraestrutura, banquetas, mesinhas, banheiro de acampamento (cadeira e tenda), kits da rede de selva, lonas, cordas, barraca e alguns alimentos além dos liofilizados. Também trouxe 4 computadores, um nobreak e acessórios de computação.
Tínhamos somente um dia para comprar os demais itens necessários da alimentação para o grupo de montanhistas e para os ingarikós. Enquanto os colegas iam chegando em diversos horários fizemos as compras restantes nos vários supermercados de Boa Vista, todo o café da manhã e a comida dos ingarikós, utensílios de cozinha e demais itens necessários. De noite o quarto estava abarrotado de dezenas de caixas e bolsas e tudo tinha de ser organizado e pesado, o que levou noite adentro.
1º DIA 11/03/24, terça-feira.
Na terça-feira 11 de Março, depois do café da manhã, às 6:20 chamamos 3 ubers e 1 táxi para nos levar a rodoviária pois às 7:00 da manhã partia o ônibus da empresa Capital Transportes que viajamos durante 9 horas, parte na BR-174 asfaltada e depois pelas BR-433 e RR-171, estradas de terra em parte esburacadas e com percursos de lama. Fomos em um ônibus antigo, muito velho mesmo, o único naquele dia, cuja porta precisava ser amarrada (!) para não cair mas que felizmente tinha o ar condicionado funcionando.
Nossa previsão inicial era de chegarmos em Uiramutã entre as 15 e 16 horas e imediatamente nos transferirmos para duas camionetes 4×4 fretadas que nos levariam em mais três horas de viagem para dentro da reserva indígena, até a sede da cooperativa agrícola NUTRIR.
Contudo recebemos a notícia de que não seria possível entrar na reserva indígena na terça e teríamos que pernoitar em Uiramutã. Já tínhamos reserva numa pousada para o dia da volta e antecipamos para o primeiro dia de ida. De certa forma estávamos perdendo um dia de folga, uma reserva que tínhamos em caso de atraso.
Neste momento começaram os imprevistos e surpresas que nos acompanhariam por toda a expedição.
2º DIA 12/03/24, quarta-feira.
Na pousada de Uiramutã, a com melhor estrutura da cidade, não servem café da manhã. Felizmente havia uma padaria perto, todos fomos nela e às 9:00h estávamos prontos para partir aguardando os 2 carros 4×4. Contudo novamente houve atraso e na hora do almoço chegou o primeiro carro. O outro carro chegou no meio da tarde porque estava fazendo outra viagem dentro da reserva indígena. Então fomos em quatro pessoas primeiro e três colegas ficaram esperando o segundo carro, que demorou, chegando quase às 17:00 e somente às 21:00 na sede da NUTRIR. Esse carro que atrasou fez duas viagens, de manhã cedo com outras pessoas e de tarde conosco. Parte do grupo ficou esperando 8 horas, das 9h às 17h. Eu fui na frente com alguns colegas levando os computadores que teríamos de montar nesse mesmo dia e fazer a entrega da doação, para continuar viagem cedo no dia seguinte, pois não podíamos atrasar mais nenhum dia.
A estrada de terra que nos leva de Uiramutã até a sede da NUTRIR foi a pior estrada que já passamos, repleta de fendas e crateras enormes, atravessa inúmeros rios e riachos cujo leito é fundo fazendo o veículo ficar a uns 60º graus de inclinação ou mais, e para sair do valão do rio é preciso usar a tração 4×4 na reduzida, dá impressão que pode capotar para trás, além de não ser qualquer carro 4×4 capaz de passar pois precisa ser bem alto e ter pneus offroad tipo MT (Mud Terrain) de maior tração. Só a viagem de carro foi uma aventura off-road à parte.
De noite todos estávamos na NUTRIR, finalmente os 7 juntos! Levamos vários computadores para o Laboratório de Informática para Ensino a Distância dos Ingarikós: foram cinco notebooks rodando Windows 10, uma impressora multifuncional de rede, um nobreak de 1200 VA, respectivos mouses e um sistema de cabeamento de alta capacidade para conectar tudo. Chegando um pouco mais cedo montamos e ligamos os equipamentos numa sala ainda em construção feita de pau-a-pique e chão de terra, partes ainda com argamassa fresca, tudo sobre uma mesa comprida feita para suportá-los. Conectamos tudo, testamos e tiramos a foto da entrega dos equipamentos, que era um dos objetivos da nossa viagem. A conexão de internet era via satélite pela Starlink.

Naquela noite fizemos nosso primeiro almojantar de comida liofilizada. Tínhamos água fervente e uma mesa ao ar livre. Montamos a tenda do banheiro de acampamento. No local do banho apareceu um filhote de porco do mato, conhecido como caititu ou queixada, que era de criação da fazenda. Pensávamos que era selvagem e poderia ser caçado para virar o almoço do dia seguinte.
Nessa noite todos dormimos dentro da sede da NUTRIR em nossas redes de selva pela primeira vez. São redes garimpeiras com mosquiteiro e tirantes. Não precisou de toldo porque estávamos dentro de um armazém, protegidos.
3º DIA 13/03/24, quinta-feira.
Acordamos cedo na sede da fazenda da NUTRIR. O tempo estava bom. Depois do café da manhã organizamos nossas bagagens na carroceria das duas camionetes 4×4 e tínhamos expectativa de atravessar o rio Cotingo, pois o rio poderia estar baixo e chegaríamos de carro até a Boca da Mata 2. Mas esse rio que nasce no Monte Roraima não estava baixo, os carros não passavam, e ficamos mesmo na Boca da Mata 1. Essas denominações são para indicar o local onde começa a floresta. Boca da Mata 1 é o fim da estrada e início da trilha de 3 km até a Boca da Mata 2, local onde chegam as voadeiras. Então, fomos de trilha levando toda a bagagem. Os nossos carregadores Ingarikós e o guia já estavam nos esperando na Boca da Mata 1 pois sabiam que não daria para passar o rio de carro, bem como outras pessoas que também aguardavam suas encomendas que vieram nos carros que usamos. E haviam outros Ingarikós que pegariam o nosso carro de volta para a cidade.
[foto com mapa da boca da mata 1 e 2]
Encontramos o nosso guia Arlindo e mais 7 Ingarikós que se dividiram com todas as nossas bagagens e em fila fomos caminhando até o local das voadeiras, as duas lanchas que estavam nos aguardando na Boca da Mata 2. No caminho paramos na Cachoeira dos Macacos para tomar um banho nas águas do rio Panari, um afluente do rio Cotingo.
Uma hora depois chegamos nas voadeiras, às margens do rio Panari. Éramos 17 pessoas, sete montanhistas, sete carregadores, o guia e mais dois piloteiros. Nos dividimos nos dois barcos com nossa bagagem ao lado e subimos o Rio Panari por 3 horas. No caminho fomos recebidos pela primeira chuva por mais de 1 hora. Mesmo com as capas de chuva nos molhamos.
Quando chegamos na aldeia Manalai já era fim de tarde e começando a escurecer. Haviam muitas pessoas nos observando com muita curiosidade e expectativa do que vai fazer esse grupo de visitantes chegando na comunidade, muitas crianças curiosas em saber quem eram aqueles estrangeiros. Tão logo chegamos fomos para um galpão coberto onde começamos a montar as redes de selva e as duas barracas antes da escuridão total.
À medida que escurecia os Ingarikós foram indo embora e ficamos sozinhos finalizando a montagem do acampamento e preparando o nosso jantar liofilizado.
Quando já estava escuro chegaram umas pessoas com lanterna para perguntar sobre nossa presença ali. Primeiramente chegou o capataz da comunidade, depois vieram outras pessoas que também eram líderes ou chefes. Combinamos de no dia seguinte de manhã fazer uma reunião com todos eles. Depois desse primeiro contato alguns colegas ficaram apreensivos de que talvez não nos permitissem subir ao Monte Caburai pois passou a impressão de que eles não sabiam porque estávamos ali.
Além disso tínhamos a preocupação de que os cinco dias inicialmente previstos para ir ao cume e voltar poderia ser pouco tempo. Então decidimos antecipar o dia de início da trilha para o dia seguinte, deixando a vivência na aldeia programada para o último dia e assim garantir um dia em caso de atraso, o que foi valioso, pois vários tinham passagens aéreas compradas para o último dia da viagem, sem muita margem.
4º DIA 14/03/24 sexta-feira, 9,7 km
De manhã cedo tínhamos muitos visitantes Ingarikós, crianças e adultos, parte da comunidade estava ali, os nossos carregadores, o guia e alguns dirigentes. Conhecermos o Josué, que tinha formação em turismo e atuava como professor na comunidade. Conhecemos o Monteiro ex-tuchaua, que coordenou a organização dos carregadores para expedição. O capataz Adriano que veio na noite anterior. E todos os carregadores que estiveram no dia anterior se apresentaram, alguns não tinham Jamaxi, a mochila típica indígena, e solicitamos que trouxessem para carregar as bagagens. Separamos os alimentos liofilizados numa única bolsa, os alimentos do café da manhã em caixas e bolsas, os equipamentos de infraestrutura (corda, banquetas, mesinhas, banheiro, panelas, etc) e os alimentos dos carregadores.
Na lista de compras para os carregadores trouxemos o que foi solicitado: carne seca, linguiça, arroz, macarrão, farinha, açúcar, café, bolachas, óleo, etc, que compramos em quantidade maior do que para os cinco dias previstos. Dissemos que levem o que vão comer nos 5 dias e o resto guardem para si. O guia distribuiu os alimentos pelos carregadores e supomos que cada um iria levar consigo, mas o que eles fizeram foi guardar a maior parte em casa, inclusive as carnes, e levaram pouca comida para eles na trilha.
Iniciamos a pesagem dos volumes, 20 kg por carregador como combinado. Tínhamos três carregadores para alimentos e infraestrutura e três carregadores privados, um total de 6 para 120kg. Depois da organização e distribuição de quem levaria o que e da montagem das mochilas de carga (Jamaxi) acabaram surgindo sete carregadores, o que também não estava previsto. Um deles era menor de idade e pedimos para só irem acima de 18 anos. Eram todos jovens, entre 18 e 27 anos. Vários nunca trabalharam como carregadores, nem mochila tinham e somente dois fizeram essa trilha.
O rio Panari estava cheio, alto, com largura de 20 a 30 metros e não seria possível atravessá-lo cinco vezes só na ida por trilha. A solução foi contratar dois barcos para nos levar até o ponto mais alto possível e ainda restaria uma travessia. Outro imprevisto de custos na trilha, R$ 400 por cada barco. O grupo de 15 pessoas, sete montanhistas, sete carregadores e o guia partiram nos barcos. Desembarcamos no ponto limite que os barcos alcançam. E continuamos numa trilha até a última travessia do rio Panari, contudo não encontrávamos uma passagem com águas baixas e o rio devido às chuvas estava muito cheio, arrastando tudo e não dava pé nos locais habituais. E ainda havia um colega que não sabia nadar.
Chegamos na casa e roça do ingarikó Geraldo, irmão do nosso guia Arlindo. Como já era um horário avançado pela parte da tarde decidimos pernoitar ali mesmo e de manhã tentar achar a passagem. Estávamos consumindo o dia reservado a vivência na aldeia Manalai e a partir desse momento não teríamos mais nenhuma folga no cronograma.
Montamos as duas barracas e cinco redes usando as lonas de proteção para cobrir parte da casa que faltava cobertura. Havia a esperança de que no dia seguinte o rio estivesse mais baixo e a passagem viável. Fizemos marcas na margem para ver se a água descia ou aumentava. Almojantamos a comida liofilizada e fomos dormir logo depois. O pernoite na casa do Geraldo custou R$ 150.
5º DIA 15/03/24 sábado, 13,7km
Pela manhã depois do café da manhã fomos verificar a situação do rio levando a corda e deixando as mochilas. No lugar que antes era passagem estava muito fundo e não seria possível para o grupo atravessar, poderíamos cair com as mochilas e bagagem. Fomos em outro local e um ingarikó atravessou levando a corda e a esticamos em ambas as margens. Sem mochilas, dois colegas mais destemidos atravessaram com a corda, mas não se mantiveram acima da água e se molharam. Esse local também não seria possível e nem dava pé.

Fomos num terceiro local e finalmente encontramos pedras com a água chegando um pouco acima do joelho. Ali seria o nosso ponto de passagem. Fomos buscar as mochilas e nos preparamos para atravessar utilizando apoios com paus maiores que os bastões de trilha e os Ingarikós ajudando. As mochilas foram atravessadas em separado com o apoio dos ingarikós. Finalmente concluímos a última grande travessia do rio Panari! Todos os rios seguintes seriam menores e mais fáceis, teoricamente. Mas nessa travessia um dos carregadores deixou cair a bagagem e perdeu nossa tenda de banheiro, que o rio levou. A partir desse momento ninguém mais tinha botas secas porque tivemos que entrar com elas dentro da água.
Agora a trilha continuava subindo e descendo morros até o acampamento seguinte, que chegamos entre as 16 e 17 horas. Estávamos numa selva cada vez mais densa. A cada morro que descíamos para subir no seguinte tínhamos que atravessar um riacho, um igarapé, ou sobre pinguelas e troncos ou por dentro da água. Todos esses igarapés eram de água potável mas sempre amarela. Muito raramente encontrávamos uma fonte de água potável cristalina. Mas sempre usamos o filtro Sawyer ou hidrosteril/ clorin.
Alerta: luz vermelha
Esse dia estava sendo um dos mais difíceis até o momento e o guia nos chamou dizendo que no ritmo que estávamos caminhando não conseguiríamos fazer o cume na data prevista, que precisávamos ter mais tempo, mais dias. Isso implicava na perda das passagens aéreas para 4 pessoas que viajavam na noite da sexta-feira. Naquele momento devido aos atrasos pelo rio cheio já perdemos o dia de folga que teríamos e estávamos com o cronograma muito justo. O perfil do grupo era variado, com a maioria caminhando de forma média porém intensa, duas pessoas mais novas com preparo físico superior mas no conjunto tínhamos dificuldade de caminhar rápido.
Estávamos agora no primeiro acampamento inteiramente dentro numa selva densa e isolada. Utilizando as lonas que trouxemos, montamos as cinco redes e duas barracas, também a lona coletiva dos ingarikós e outras lonas que eles tinham trazido. Eles fizeram a fogueira para ferver a água e preparamos o almojantar com comida liofilizada que basta água fervente. A seguir os carregadores iriam preparar sua comida, porém a deles já estava ficando escassa. Nesse momento percebemos que eles deixaram as carnes e parte dos alimentos em suas casas e trouxeram muito pouco para a trilha. Foi um fato gravíssimo que poderia comprometer toda a expedição. Além do que percebemos que rapazes novos não sabem cozinhar e a comida indígena é muito diferente da que compramos.
Tivemos que compartilhar um pouco da nossa comida liofilizada com eles e um colega ajudou-os a cozinhar. Os carregadores eram muito novos, alguns inexperientes e nunca tinham feito esse trabalho de carregador. Um deles se queixou de estar fraco. Precisávamos deles em boas condições para que o grupo inteiro conseguisse prosseguir nessa aventura. Eram todos por um, um por todos. Jantamos e dormimos preocupados pensando como faríamos para conseguir chegar ao cume e voltar a tempo de não perder os voos já comprados.
6º DIA 16/03/24 domingo, 19,4km
No café da manhã esse também foi o assunto e o guia foi categórico: se não caminharmos mais rápido não chegaremos ao cume no tempo necessário. E que todos deveriam caminhar juntos ou próximos e somente durante o dia, sem pegar a noite na selva ou nos afastar muito para não se perder, entre outros riscos.
Estávamos numa selva que por meses ou anos ninguém passa, não existe uma trilha claramente definida e é tudo muito fechado, com muitos riscos, muitos animais perigosos e predadores. Diante de toda essa situação um colega decidiu que não continuaria mais e ficou com dois carregadores para retornar à aldeia Manalai. Buscamos uma alternativa, mas não havia muita escolha. Logo depois do café da manhã o grupo desmontou o acampamento e com as mochilas começamos a caminhar subindo e descendo montanhas novamente, atravessando igarapés por dentro d’água, escalaminhando uma infinidade de barreiras formadas de troncos caídos que fechavam a trilha, e tínhamos que percorrer 20 Km até alcançar o próximo acampamento
antes de escurecer, apelidado pelo guia de Acampamento Merenda. Se conseguíssemos chegar nele, o seguinte seria o cume do Caburaí, no local onde está o Marco B/BG-11-A.
Essa caminhada foi mais intensa e pesada que as anteriores. Eu levava a minha mochila Deuter com 17 kg incluindo a água. O tempo todo eram subidas e descidas, cruzando igarapés e voltando a subir, e sempre subindo mais. A todo instante encontrávamos troncos caídos que tínhamos que superar, alguns mais altos que precisávamos subir por uma madeira quase podre, escorregadia e molhada para atravessá-los, e em outros ir por baixo. Nos igarapés às vezes íamos por dentro d’água com os pés molhados o tempo todo. Ou atravessando se equilibrando em troncos e era comum escorregar. Haviam charcos e alagados frequentes, regiões pantanosas. O ritmo era contínuo e não tínhamos tempo de parar muito porque precisávamos chegar nesse acampamento antes de escurecer. O momento de pegar água era o mais esperado porque você podia descansar alguns minutos nesse intervalo. Todos tiveram vários tombos, espinhos que nos furavam a pele, as canelas estavam inchadas de pancadas e o corpo com vários arranhões, mas isso era o que menos importava pois tínhamos que caminhar.
Eu no grupo dos mais velhos era o único que levava uma mochila pesada e comecei a ficar em exaustão, levando tombos várias vezes, contei nove em um único dia, num deles cortei os lábios que sangravam, além das cabeçadas em troncos e torções. Estava percebendo que poderia estar com hipoglicemia. Nas paradas comíamos uma barra de cereal ou algo parecido tomando sempre muita água. Nesse dia comecei a pensar que deveria ter ficado com o colega que voltou porque estava no meu limite, a ponto de exaustão como nunca tinha vivenciado antes em todas as trilhas que já fiz, e preocupado que alguma coisa mais grave acontecesse com meu organismo. Se acontecesse isso a situação seria extremamente grave naquele lugar tão isolado. Estávamos fazendo uma trilha muito mais difícil que o Pico da Neblina ou que a Serra do Aracá, ou mesmo a Serra Fina, apesar de já ter subido duas vezes ao Monte Roraima em sequência. Considero que foi a trilha mais extenuante de todas. Mas em termos de densidade de mata fechada só não superou a Travessia Latitudinal da Ilha Grande, um local que não existe trilha.
Finalmente depois de um esforço enorme e muito duro chegamos ao acampamento batizado pelo guia de Acampamento Aranha, o destino daquele dia. A partir de ali a subida não melhoraria e sim aumentaria em obstáculos e a quantidade de árvores caídas com dimensões enormes onde você sobe por até quase 1 ou 2 metros para atravessá-la, pareciam dezenas e dezenas, mas faltava só mais um dia para chegar ao cume.
Então, nessa noite procurei o guia perguntando se algum carregador poderia levar a minha mochila e pagaria uma diária extra. Ele confirmou que sim e chamou o mais experiente dos rapazes, o Ivaldo de 27 anos, que tinha mais preparo e força física porque outros mais novos estavam sofrendo na trilha tanto quanto nós, não conseguiriam carregar mais peso.
Os Ingarikós prepararam a fogueira para o jantar, primeiro a água fervente para os alimentos liofilizados e a seguir na mesma panela íamos preparar a comida dos carregadores, que agora era uma mistura de parte das nossas comidas liofilizadas com o pouco que eles tinham levado. Cada um doou um pacote de liofilizado.
Depois do almojantar fomos dormir.
7º DIA 17/03/24 segunda-feira – Subida ao cume ★ 14,3km de trilha
Acordamos cedo e tomamos o café da manhã, desmontamos o acampamento e nos preparamos para subir. Desta vez eu não tinha mais a mochila de 17 kg mas levava a câmera Nikon, um bolsa estanque, capa de chuva, câmera GoPro, garrafa de água, GPS, tudo com cerca de 5 kg. Pesei minha mochila agora com 12 kg e um colega adicionou quase 5 kg do seu equipamento fotográfico e Power Bank, e passei a mochila de 17 kg para o carregador ingarikó. Mesmo assim esse dia continuou sendo um dos mais difíceis porque tínhamos muitas árvores grandes caídas obstruindo a trilha e tínhamos que subi-las para descer do outro lado, passamos por charcos, alagados e rios sempre subindo e descendo, cruzamos descampados que permitiam comunicação por rádio, o que foi bastante útil na volta.
Na comunidade Manalai usam o rádio walk-talkie Baofeng no canal 2 como meio de conversa e avisos, mantendo sempre ativo.
Em vários momentos a trilha se tornava mais fechada e desaparecia, então tínhamos que esperar que o nosso guia Arlindo encontrasse a continuidade da trilha. Apesar de termos um outro tracklog no GPS, mas dentro da floresta às vezes não havia muita exatidão e o guia era bem mais preciso. Ele sabia identificar onde era o caminho de pessoas ou das águas ou de animais, identificando se passou uma onça ou uma anta ou outro bicho conforme as pegadas e sinais que eles deixavam. De facão na cintura, um short rasgado e sandália havaianas o Arlindo Ingarikó era o exemplo de homem da Floresta. Em um momento ele machucou o pé com espinhos e o ajudamos com curativo, e também sua sandália já tinha arrebentado. Então, combinei dele caminhar com a minha Crocs mesmo sendo de um tamanho maior e no acampamento ele me emprestava para que eu usasse, mas na trilha seria ele. A partir desse dia anterior ao cume ficou assim e no final da expedição deixei a Crocs com ele. Nesse dia, mesmo com inúmeros tombos e dificuldades que todos tinham, avançamos e pelas 15 horas chegamos ao Marco BG-11, que estava na fronteira entre o Brasil e a Guiana, porém ainda não era o ponto mais setentrional do Brasil.
Caminhamos em torno de quase uma hora e chegamos pelas 16 horas ao Marco do EXTREMO NORTE o icônico e mítico B/BG-11A. Todos estavam felizes e ao mesmo tempo esgotados e estropiados, tanto que nas fotos era difícil ter um semblante sorridente, mas havia a emoção de ter conseguido ao mesmo tempo que a expressão de extenuados e do grande esforço era presente. Eu estava nos meus limites, sabia disso e precisava restaurar as energias porque estávamos somente na metade da aventura. O retorno não seria mais fácil e não tínhamos certeza se o rio Panari estaria mais baixo. Até aquele momento tivemos quatro dias de chuva e todas as águas descem por esse rio que deságua no rio Cotingo.
Um colega levou um drone que registrou algumas imagens aéreas do grupo. Soubemos por um dos ingaricós que havia na região um grupo Ingarikós vivendo isolados, sem contato com o branco e nem com os outros Ingarikós, numa região perto e totalmente remota, mas não havia certeza se era no território do Brasil ou da Guiana, pois estávamos caminhando pela fronteira.
Me lembrei que uma vez estando na Proa do Monte Roraima o nosso guia local Taurepang apontou na direção daquelas montanhas dizendo que lá viviam indígenas isolados que praticavam o canibalismo. Retornando ao Rio de Janeiro pesquisei junto a Funai e ao ISA, Instituto Sócio Ambiental, e realmente confirmam a existência no estado de Roraima de povos indígenas nunca contactados e que alguns praticam o canibalismo ritual, não como alimentação, mas para incorporar a força ou a energia dos outros. Certamente num contato, são eles que sofreriam o maior risco, como o de contrair doenças do branco pois não devem ter imunidade.
Depois da sessão de fotos e de uma singela comemoração de termos alcançado o EXTREMO NORTE, começamos a montar o acampamento. Eu e um amigo montamos a barraca e o restante do grupo as suas redes de selva perto da floresta onde havia árvores para amarrar a rede mas também muitos insetos atraídos pela presença humana.
Eu estava extenuado e ainda não me recuperei da exaustão anterior, só queria descansar mas sabia que era necessário me alimentar bem. Se algo mais grave acontecesse iria prejudicar o grupo inteiro, pois jamais me senti chegar a um limite físico extremo no organismo como nessa vez. Precisava garantir minha capacidade física de continuar pois no dia anterior senti realmente o risco de um colapso por exaustão.
Os Ingarikós prepararam a fogueira, fizemos a nossa comida liofilizada com água fervente e logo depois os ingarikós prepararam a sua comida na única panela que tínhamos. Haviam duas panelas porém com o retorno de um integrante do grupo e mais dois Ingarikós, dividimos: a panela menor para eles e nós ficamos com a maior, a única.
Depois do almojantar todos fomos dormir com o céu limpo estrelado, torcendo para não chover de noite.
8º DIA 18/03/24 terça-feira ★ 20,2 km de trilha
Este era o primeiro dia da descida e tínhamos que estar em Manalai até o final da quarta-feira. Pelo tracklog caminhamos 20km. As entrevistas que tínhamos planejado para a quarta-feira não dariam mais tempo de se fazer. Só se chegássemos de dia o que seria impossível. Como passamos por uma montanha que dava sinal de rádio, tentamos comunicação para avisar as voadeiras, que venham nos buscar para o retorno até a comunidade, devido ao risco do rio Panari estar cheio.
Como dizem que na descida todo santo ajuda, desta vez tínhamos que chegar até o acampamento mais próximo ao rio Panari, bem depois do acampamento Aranha que dormimos antes. A motivação principal agora era chegar em Boa Vista e pegar o avião de volta. Dos restantes seis do grupo, quatro tinham passagem para a noite de sexta-feira e dois poderiam ficar mais tempo. A trilha não era mais fácil, era a mesma, mas o grupo estava melhor desta vez e o tempo favoreceu, não choveu nesse dia. Isso nos motivava mais porque o rio poderia baixar, reduzia-se o risco de imprevistos. Avançamos bem, mas não sem as quedas e escorregões habituais. E chegamos ao último acampamento. Conseguimos em outro ponto enviar uma mensagem via rádio para que avisem aos barcos que nos esperassem para descer o rio Panari até a aldeia Manalai.
No acampamento preparamos os alimentos liofilizados. Compartilhamos um pouco com os carregadores e fomos dormir.
9º DIA 19/03/24 quarta-feira ★
À noite não choveu e foi mais um dia com sol, indicando que os rios estariam mais baixos. Depois do café da manhã consumimos as poucas coisas que sobravam de café da manhã, os pães tinham terminado, eu comi um liofilizado, e continuamos a descida. Num dos pontos que houve sinal de rádio recebemos a notícia de que não haveria barcos pois tinham ido para um serviço em outro lugar. Não tínhamos outra opção a não ser atravessar o rio Panari por cinco vezes, o que com o rio cheio seria impossível. Como foram dois dias sem chuva estávamos com a sorte ao nosso lado desta vez. Ao voltar também passamos ao meio dia pela palhoça do Geraldo Ingarikó e lá havia uma deliciosa comida Indígena nos esperando: mingau de raiz de taioba com mandioca, banana, beiju e pimenta. Todos se alimentaram e isso nos deu a força e energia que estava faltando para a trilha final. Essa refeição para o grupo de seis custou R$ 150 mas valia muito mais naquele momento.

O Panari é um rio largo com uns 30 metros e em vários pontos tem corredeiras com pedras onde é possível caminhar se estiver baixo, e fizemos isso. Mas entre as travessias do rio a trilha subíamos uma montanha e descíamos do outro lado. Fizemos sim até a última travessia mais funda, mas nesta ficava um pequeno barco sem motor para facilitar aos Ingarikós de cruzarem o rio. Depois dessa travessia já estávamos praticamente em Manalai, onde chegamos no anoitecer. O colega que tinha retornado no início da caminhada não estava mais em Manalai, tinha ido embora no dia anterior.

Estávamos com fome e encomendamos um jantar na casa do Monteiro, administrador da comunidade, que fica no alto de uma colina. Galinha caipira com arroz, pimenta e banana, por 200 reais para 6 pessoas. Já era noite e sem luz elétrica. Com as nossas lanternas retornamos ao acampamento dentro do galpão, que também é usado para encontros e reuniões. Haviam bancos e mesas onde apoiamos nossas coisas. Todos os carregadores e o guia tinham ido para suas casas.
10º DIA 20/03/24 quinta-feira
Este é o dia da volta, acordamos cedo para tomar o café da manhã porém parte da comida que deixamos estava guardada em outro lugar e demorou para chegar. Nesse tempo organizamos nossas mochilas e nos preparamos para a viagem de volta. Todos os carregadores Ingarikós vieram receber seu pagamento. A bagagem e comida que deixamos chegou logo depois e nos alimentamos, e distribuímos para os Ingarikós os alimentos que sobraram.
Pelas 8 horas da manhã às duas lanchas já estavam nos esperando e nos preparamos para a partir, despedindo de todos. Não houve tempo da vivência na aldeia Manalai, de conversar e fazer entrevistas, de ouvir histórias e lendas, como tínhamos planejado. Havia a sensação de nos afastarmos de uma realidade que vivemos intensamente por vários dias. Aqueles rapazes e o nosso guia, não sabíamos quando os veríamos de novo. Mas o sentimento de perda de um mundo e realidade bastante diferente da que conhecemos também era compensado com a perspectiva de voltar as nossas casas, se recuperar dos perrengues e restaurar o corpo.
Fomos de barco até a Boca da Mata 2. Dali seguimos por trilha até a Boca da Mata 1 onde as camionetes 4×4 estariam nos esperando para seguir viagem rumo a Uiramutã.
Chegamos pelo meio dia e só havia um carro, o outro viria logo depois para nos levar. Todos preocupados em chegar na civilização logo e garantir a viagem para Boa Vista. Com uma hora de espera chegou o segundo carro trazendo mercadorias que iriam ser levadas para a comunidade Manalai. E logo a seguir partimos com os dois carros. Alguns quilômetros depois o carro da frente quebra e perde um suporte do eixo e não pode mais continuar a viagem. A solução foi de todos irem no mesmo carro com alguns na carroceria, e assim fomos até a fazenda da NUTRIR tentar alguma solução. Conseguimos nos comunicar com outro veículo que estava em Uiramutã e viria nos resgatar. Enquanto isso almoçamos e ficamos esperando até o fim da tarde. Conseguimos fazer mais uma reserva de hotel pela internet. E finalmente ao fim do dia os dois carros partiram pela estrada chegando em Uiramutã pelas 22:00 de quinta-feira. Queríamos jantar mas nesse horário já não havia opções e fomos numa lanchonete. Juntaram-se a nós outras pessoas que se conheciam pela cidade e numa mesa grande ficamos até a meia-noite aproximadamente. Depois fomos para o hotel para dormir. Nesse momento os dois colegas que não tinham passagens aéreas decidiram ficar mais tempo para conhecer as cachoeiras da região e combinaram mais um dia de viagem no carro 4×4.
11º DIA 21/03/24 sexta-feira
Éramos quatro para voltar para Boa Vista e um colega conseguiu o contato com um carro comum que levaria os quatro em viagem fretada. Custaria 150 por pessoa mas como eu tinha uma bagagem adicional o valor final ficou em 700. As camionete 4×4 que funcionam como Uber 4×4 cobram esse preço por pessoa mas também levam carga e só fazem valor de carro fretado por um preço no mínimo o dobro ou triplo do carro de passeio.
Chegando em Boa Vista um colega foi para o aeroporto e três para o hotel e pagamos meia diária para ficar no quarto tomar um banho e organizar as malas que tínhamos deixado guardadas no guarda volumes do hotel. Eu cheguei com três malas despachadas e voltei com duas, minha mochila e mais a infraestrutura da expedição. No sábado já estávamos chegando em nossas casas e preparando a recuperação dos ferimentos, inflamações, contusões e tudo mais que era necessário como tomar vermífugos, fazer curativos e consultar médicos.
Foi uma aventura que não vamos esquecer por muito tempo. ALCANÇAMOS O EXTREMO NORTE DO BRASIL!!














